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A coragem moral de se preocupar

“Sê forte e corajoso. Não tenhas medo; não te desanimes, pois o Senhor, o teu Deus, estará contigo para onde quer que fores.” — Josué 1:9 (NIV)

Neste artigo...

Por Paulo Lopes, Presidente, ADRA Internacional
Publicado a 4 de agosto de 2026

Algumas das tarefas mais importantes do mundo nunca são fotografadas. Não envolvem correr para dentro de um edifício em chamas nem manter uma linha de defesa sob fogo inimigo. Decorrem a um ritmo mais lento do que isso, em espaços onde a maioria de nós nunca entrará, e requerem mais esforço para serem mantidas do que para serem iniciadas.

É a coragem de cuidar, repetidamente, de pessoas cujo sofrimento está longe de casa. A coragem de permanecer quando a necessidade é implacável e os recursos parecem insuficientes. A coragem de escolher a proximidade em vez do conforto, e a fidelidade em vez da facilidade.

Todos os anos, a 19 de agosto, o mundo celebra o Dia Mundial da Ajuda Humanitária, uma data dedicada a homenagear os homens e as mulheres que realizam trabalho humanitário em alguns dos locais mais difíceis do planeta. É um dia que tenho vindo a valorizar cada vez mais com o passar dos anos e que me dá um motivo para dizer algo que não digo com a frequência que devia.

Obrigado.

Às pessoas que estão presentes

Todos os dias, em dezenas de países, os colaboradores e voluntários da ADRA realizam um trabalho que a maioria das pessoas nunca chegará a ver.

Estão a distribuir alimentos em comunidades que ainda se estão a recuperar das inundações que já deixaram de ser notícia. Estão a sentar-se com as famílias nos campos de deslocados, a ouvir histórias cujo peso ninguém deveria ter de carregar sozinho. São professores que ajudam as crianças a recuperar anos de educação perdidos, profissionais de saúde comunitários que se deslocam a aldeias remotas, especialistas em logística, coordenadores, tradutores e formadores.

E, em muitos casos, são vizinhos das pessoas a quem prestam assistência; membros das próprias comunidades que estão a ajudar a reconstruir. Isso é extremamente importante. As pessoas mais próximas de uma crise compreendem-na melhor do que qualquer pessoa que chegue de fora. Capacitar, confiar, disponibilizar recursos e apoiar aqueles a quem se presta assistência não é apenas uma boa prática. É a concretização do respeito na prática.

Alguns deles trabalham em locais onde a palavra “perigoso” não é uma figura de estilo. Eles conhecem os riscos. Mesmo assim, vão na mesma.

Isso é coragem moral. Não é a ausência de medo, mas a recusa em deixar que o medo seja o fator decisivo.

O que os sustenta

Tive o privilégio de estar ao lado de muitos destes homens e mulheres, em países de todo o mundo, em aldeias e zonas de catástrofe, e nos momentos de tranquilidade entre as exigências do trabalho.

O que constato, sempre, é que a adrenalina acaba por se esgotar e a ideologia só leva uma pessoa até certo ponto. O que as mantém firmes é um sentido de vocação, a convicção de que o trabalho é importante mesmo quando o progresso é lento e a confiança de que não estão sozinhas nessa luta. Deus está presente nos locais de maior sofrimento, e estar presente é uma forma de nos colocarmos onde Ele já está.

Ao longo dos anos, voltei a Josué 1:9 mais vezes do que consigo contar. Este texto não foi escrito para pessoas que viviam em circunstâncias confortáveis. Foi proferido no meio da incerteza de uma missão assustadora, a um líder que tinha todos os motivos para se sentir oprimido. “Sê forte e corajoso. Não tenhas medo; não te desanimes, pois o Senhor, o teu Deus, estará contigo para onde quer que fores.”

Onde quer que vás. Ao campo. Para além da fronteira. À comunidade que o resto do mundo deixou de observar.

Essa promessa ainda não perdeu a validade. Já a vi concretizar-se tantas vezes que não tenho motivos para duvidar dela.

A solidariedade não é passiva

A solidariedade está no cerne do trabalho humanitário. A solidariedade não é compaixão à distância. É a vontade de nos ligarmos genuinamente a pessoas cujas circunstâncias diferem das nossas e de aceitar que essa ligação nos custe algo.

Para aqueles de nós que não estão no terreno, a solidariedade traduz-se em atenção constante, generosidade constante e oração que se recusa a esfriar quando uma crise deixa de ser notícia. Significa confiar e dar voz aos líderes locais, em vez de partir do princípio de que a ajuda significativa tem de vir sempre de outro lado.

Os homens e as mulheres que realizam este trabalho não estão sozinhos. Contam com o apoio de uma rede de parceiros, doadores e intercessores que tornam a sua presença possível. É essa rede que transforma atos individuais de coragem em algo maior do que qualquer pessoa isoladamente. É isso que significa a solidariedade na prática.

Uma palavra pessoal de agradecimento

Se trabalhas para a ADRA ou se dedicaste o teu tempo e as tuas competências a servir as comunidades no âmbito dos nossos programas em qualquer parte do mundo, a tua contribuição é reconhecida. O trabalho é árduo e o reconhecimento raramente é proporcional ao esforço. Estás a demonstrar coragem moral sempre que te empenhas.

Cada refeição distribuída, cada sala de aula reabilitada, cada família que recebe apoio no seu momento mais difícil. Isso é importante. Não se perde, mesmo quando parece invisível.

E a todos aqueles que apoiam este trabalho através da oração e das doações — muito obrigado também. É graças à vossa colaboração que as pessoas no terreno conseguem continuar a trabalhar.

Neste Dia Mundial da Ajuda Humanitária, que todos aqueles que encontraram a coragem de ajudar saibam que lhes estamos profundamente gratos e que este trabalho nunca foi concebido para recair sobre os ombros de uma única pessoa.

*Publicado pela Agência Adventista de Desenvolvimento e Assistência Humanitária (ADRA), o braço humanitário da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Saiba mais sobre a ADRA.

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