
Venancia não sabe quando é que a violência começou.
“Há guerra desde que nasci”, disse o jovem de 18 anos que cresceu na República Democrática do Congo (RDC).
Mesmo com a agitação que a rodeava, era uma aluna ávida que adorava estudar e jogar futebol com os amigos. De acordo com todos os relatos, Venancia estava a caminho de um futuro brilhante.
Foi durante um desses jogos de futebol com os amigos que uma bala surgiu do nada, sem sequer estar apontada para ela, e atingiu Venancia na perna. Ao som do tiroteio, toda a gente fugiu em busca de segurança, mas Venância não se conseguiu mexer.
Permaneceu no local onde caiu, encolhida sozinha no meio do campo de futebol e segurando a perna partida em agonia, durante mais de sete horas.
Quando um familiar encontrou Venancia e a levou de urgência para o hospital, os médicos já não podiam fazer nada para lhe salvar a perna - foram obrigados a amputá-la.
Nascida em circunstâncias fora do seu controlo, Venancia encontrou um refúgio seguro na escola, um belo mundo onde o caos exterior não a podia tocar.
A recuperação do acidente manteve-a afastada desse refúgio seguro durante dois anos e estava muito atrasada em relação aos seus antigos colegas quando conseguiu voltar a matricular-se na escola.
“Foi um pesadelo”, recorda Venancia. “Mas eu estava mais determinado do que nunca a terminar os meus estudos. Sei que terminar a escola significa que a minha vida vai ser melhor. Serei capaz de encontrar um emprego e sustentar-me.”
Eventualmente, um após o outro, ela perdeu todos os seus cinco irmãos devido à violência.
“A minha mãe acabou por decidir que, se quiséssemos viver, teríamos de partir. Saímos da RDC a pé e caminhámos durante mais de uma semana”, conta Venancia.
Para Venancia, andar significava coxear com muletas.
E a fuga significou que Venancia pôs os seus estudos em pausa - mais uma vez. A vida teve de recomeçar completamente para a pequena família e o futuro de Venancia parecia estar para sempre à mercê de forças fora do seu controlo.
Quando chegaram ao Uganda, a mãe e a filha refugiadas receberam rações alimentares, um pequeno terreno e uma lona. A mãe de Venancia, engenhosa, fez com que as rações de um mês se prolongassem por alguns meses até que a pequena horta que plantaram no seu terreno começasse a fornecer produtos para comer.
A tenda que construíram a partir da lona tornou-se a sua casa durante os anos seguintes.
Venancia perdeu mais um ano de escola enquanto se adaptava à vida numa colónia de refugiados. Quando regressou à sala de aula, mais uma vez era mais velha do que todos os outros alunos da turma. E agora enfrentava também uma barreira linguística. Ela falava francês, mas as suas novas aulas eram dadas em inglês.
“No início, não me importava de não perceber nada”, diz ela. “Sabia que, com o tempo, também aprenderia inglês. Preferia lutar com uma nova língua do que voltar para casa e arriscar a minha vida.”
Imaginem a força que é necessária para continuar a agarrar os vossos sonhos enquanto experimentam a vida que Venancia viveu. A jovem mulher enfrentou todos os contratempos com graça e coragem. Isto inclui a morte da sua mãe, que deixou Venancia completamente sozinha.
A escola tornou-se mais do que um porto seguro para Venancia - é agora também a sua casa.
Os seus colegas de turma são a sua família. A educação é o que lhe resta. É a chave para a sua sobrevivência.
“Se não fosse a escola, não teria ninguém. Estaria a viver numa casa pequena sem a minha mãe”, diz Venancia. “A educação é importante porque posso capacitar-me. Quando for grande, quero ser médica. Quero ajudar os refugiados e as pessoas com deficiência como eu.”