Por Paulo Lopes, Presidente, ADRA Internacional

[O Presidente da ADRA Internacional, Paulo Lopes, e o antigo presidente da ADRA, Michael Kruger, encontram-se com crianças na fronteira entre o Equador e o Peru].

Nas minhas três décadas de trabalho humanitário, uma verdade emergiu com uma clareza cristalina: o amor fala todas as línguas.

A ADRA está presente em mais de 120 países, formando agricultores em Madagáscar, alfabetizando em El Salvador, garantindo o acesso aos cuidados de saúde nas Filipinas, respondendo a emergências em todos os cantos do mundo e muito mais. Independentemente do local onde trabalhamos ou da língua que se ouve no ar, a compaixão não precisa de tradução. Uma mão gentil num ombro, uma refeição partilhada, água limpa a correr: estes actos transcendem todas as fronteiras e limites.

O amor em ação é muito semelhante, quer estejamos numa aldeia sem eletricidade ou numa cidade a recuperar de uma catástrofe. Os pormenores mudam, mas o coração permanece constante.

Para além da Geografia

As Escrituras recordam-nos que “nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Isto não é apenas uma bela teologia; é a base da compaixão global. Quando compreendemos verdadeiramente o quão generosamente e incondicionalmente fomos amados por Deus, as fronteiras geográficas tornam-se irrelevantes. As diferenças culturais desvanecem-se. As barreiras linguísticas desmoronam-se. Começamos a ver o que Deus sempre viu: a Sua imagem reflectida em cada rosto, independentemente do passaporte ou do código postal.

É isto que impulsiona o trabalho que fazemos na ADRA. Não atravessamos continentes para sermos heróis ou salvadores. Partimos porque fomos chamados a servir a humanidade para que todos possam viver como Deus pretende, com dignidade, oportunidade e esperança. Quer estejamos a responder a emergências ou a investir no desenvolvimento a longo prazo, estamos simplesmente a passar adiante o que recebemos primeiro.

[Foto Cortesia de ADRA Peru]

O paradoxo do serviço

Eis o que décadas de trabalho humanitário me ensinaram: quanto mais damos, mais descobrimos que não estamos realmente a dar. Estamos a participar. Estamos a juntar-nos a um movimento de compaixão que começou muito antes de chegarmos e que continuará muito depois de partirmos.

Cada ato de serviço, quer se trate de fornecer água potável, de ministrar educação, de oferecer ajuda em caso de catástrofe ou de criar oportunidades económicas, torna-se um fio de uma grande tapeçaria de amor que se estende por todo o globo. As nossas equipas não trazem apenas recursos; trazem presença. Ficam. Escutam-nos. Aprendem nomes, partilham refeições e celebram pequenas vitórias, porque é isso que o amor faz.

As pessoas que servimos não são projectos a concluir ou problemas a resolver. São os nossos vizinhos no sentido mais verdadeiro: portadores da imagem de Deus que merecem ser vistos, conhecidos e valorizados. Quando uma comunidade obtém acesso a água potável, celebramos não porque a fornecemos, mas porque as famílias são mais saudáveis, as crianças podem ir à escola em vez de andarem quilómetros à procura de água e a vida torna-se um pouco mais parecida com o que Deus sempre quis.

[Foto Cortesia de ADRA International]

Chamado a mais

Miqueias 6:8 pede-nos para “agir com justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o teu Deus” (NVI). Repare que o texto não especifica onde para fazer estas coisas. Não limita a nossa compaixão ao nosso bairro, à nossa nação ou à nossa tribo. O apelo é universal porque o amor de Deus é universal.

É este o convite que temos diante de nós: deixar que o nosso amor ultrapasse todas as fronteiras que o poderiam conter. Reconhecer que uma criança que sofre num país que nunca visitaremos é tão importante como a criança da porta ao lado. Compreender que quando servimos os vulneráveis em qualquer lugar, estamos a servir o próprio Cristo, tal como Mateus 25 promete.

Num mundo cada vez mais definido por muros e divisões, este tipo de compaixão sem fronteiras parece radical. Mas não deveria. É simplesmente o que acontece quando levamos a sério o mandamento de amar como fomos amados.

[Crédito da foto: ADRA El Salvador]

Esperança sem limites

É esta a esperança que tenho: que o amor continua a ser a força mais poderosa para derrubar barreiras. Quando escolhemos a compaixão em vez da indiferença, quando deixamos que a misericórdia guie as nossas mãos através de qualquer fronteira, não estamos apenas a mudar as circunstâncias. Estamos a refletir o coração de Deus para um mundo que nos observa.

Estamos a declarar que ninguém está demasiado longe para ser importante. Nenhuma comunidade está para além dos cuidados. Nenhuma crise coloca alguém fora do círculo das nossas preocupações.

Isso é amor sem fronteiras. É a compaixão global. É o trabalho humanitário no seu melhor, e é uma linguagem que todos podem compreender.

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Sobre a ADRA

The Adventist Development and Relief Agency is the international humanitarian arm of the Seventh-day Adventist Church serving in 120 countries. Its work empowers communities and changes lives around the globe by providing sustainable community development and disaster relief. ADRA’s purpose is to serve humanity so all may live as God intended.