Por Paulo Lopes, Presidente, ADRA Internacional
“Sê forte e corajoso. Não tenhas medo... porque o Senhor teu Deus vai contigo”.” - Deuteronómio 31:6 (NVI)
Vivemos numa época em que a incerteza é constante.

Desde as crises globais e as catástrofes naturais à instabilidade económica e às crescentes necessidades humanitárias, o mundo pode parecer instável de uma forma que põe à prova tanto os nossos sistemas como os nossos espíritos. É fácil, em momentos como este, sentirmo-nos pequenos. Perguntarmo-nos que diferença pode realmente fazer uma vida, uma escolha, um ato de fé.
E, no entanto, é precisamente aqui que começa a esperança.
Não como uma grande solução para todos os problemas, mas como algo mais calmo e mais pessoal. Uma forma de nos movimentarmos no mundo. Uma decisão de confiar que, mesmo em tempos incertos, Deus continua presente, continua a trabalhar, continua a convidar-nos a participar em algo maior do que nós próprios.
É nisto que penso quando reflicto sobre a liderança baseada na fé. Não é um título ou uma posição, mas uma postura do coração. Uma vontade de levar esperança, mesmo quando o resultado ainda não é claro.
A esperança vivida na coragem quotidiana
Nos anos em que trabalhei com a ADRA, vi a liderança durante as crises não só nas respostas em grande escala, mas também nas escolhas diárias das pessoas comuns.
Penso numa mãe que, depois de perder a sua casa numa catástrofe natural, recomeça com uma determinação tranquila, concentrada não no que foi perdido, mas no que ainda pode ser reconstruído para os seus filhos. Penso num agricultor que continua a cuidar do seu campo durante uma estação difícil, confiando que as sementes que planta hoje darão um dia uma colheita. Penso num pai ou numa mãe que escolhe aprender uma nova habilidade de subsistência, entrando no desconhecido para que a sua família possa ter um futuro mais estável.

Estas não são as histórias que fazem as manchetes dos jornais. Mas são elas que sustentam o mundo.
Recordam-nos que a esperança e a resiliência não são ideias abstractas. São vividas em pequenos e fiéis passos. Na escolha de seguir em frente. Acreditando que o amanhã pode ser diferente, mesmo quando o dia de hoje é difícil.
Uma expressão partilhada de esperança
O que me comove igualmente são os indivíduos que escolhem estar ao lado dos outros nestes momentos.

O voluntário que atravessa fronteiras para servir comunidades que nunca conheceu, oferecendo não só as suas capacidades mas também a sua presença. O doador que dá, por vezes de forma sacrificial, confiando que a sua contribuição se tornará parte de uma história maior de cura e restauração. O membro da igreja que mobiliza a sua comunidade para responder quando ocorre uma catástrofe, assegurando que ninguém enfrenta as dificuldades sozinho.

Estes actos podem parecer simples. Mas, em conjunto, formam algo poderoso: uma expressão global de compaixão que reflecte o coração de Deus.
Num mundo que muitas vezes se sente dividido e incerto, eles são lembretes de que ainda estamos ligados. Que ainda pertencemos uns aos outros.
A força silenciosa da fé
As Escrituras não nos prometem uma vida livre de incertezas. Mas recorda-nos, uma e outra vez, que não andamos sozinhos.

A esperança, quando enraizada na fé, torna-se algo estável. Não depende das circunstâncias, mas está ancorada no carácter de Deus. Permite-nos avançar sem ter todas as respostas, confiando que Ele já está presente nos sítios onde ainda temos de chegar.
E talvez seja este o significado, no sentido mais simples, de liderar com esperança.
Não para ter tudo planeado.
Não para resolver todos os problemas.
Mas escolher, todos os dias, responder com fé em vez de medo.
Para ver possibilidades onde os outros só vêem obstáculos.
Refletir, nas nossas próprias vidas, a certeza tranquila de que Deus continua a trabalhar.
Um convite
A incerteza fará sempre parte do nosso mundo. Mas a esperança também.
Vemo-lo na resiliência das comunidades que se reconstroem após uma perda.
Vemo-lo na generosidade daqueles que decidem dar e servir.
Vemo-lo nas inúmeras pequenas decisões, tomadas todos os dias, para continuar a avançar.
E nós somos convidados a fazer parte dessa história.
Levar a esperança para as nossas casas, para os nossos locais de trabalho, para as nossas comunidades.
Confiar que até o mais pequeno ato, praticado com fé, pode ter repercussões de uma forma que talvez nunca cheguemos a ver.
Porque nas mãos de Deus, a esperança nunca é desperdiçada.
Cresce.
Multiplica-se.
E, com o tempo, transforma não só a vida dos outros, mas também a nossa.